sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Marionetistas e o Teatro de Formas Animadas #1


Leandro Martins de Miranda


Marionetistas: Os mestres do encantamento com os sistemas mecânicos, Marionetes



Não seria grande devaneio, afirmar que os marionetistas (manipuladores de bonecos, titereiros) são verdadeiros mestres do encatamento com sistemas mecânicos, onde estes sistemas são os bonecos. Afinal, uma das funções da Arte é o encantamento.
A construção de bonecos para o Teatro contempla a união entre as artes cênicas e belas artes em função da animação de objetos, máscaras e bonecos por atores ou manipuladores/marionetistas, tornando evidente a visualidade na cena teatral. Este campo da arte é um universo de possibilidades, pois trata da interação do homem com instrumentos e acessórios do cotidiano ou objetos concebidos para se tornarem personagens. Esta maneira inusitada de fazer teatro encontra-se dividida em tendências ou gêneros como teatro de animação, teatro de objetos, teatro de bonecos, teatro de marionetes e teatro de sombras, entre possíveis outros dos quais os termos mudam ou deixam de ser usados com o decorrer do tempo e com as novas técnicas e abordagens conceituais. A forma de se fazer Teatro com bonecos já foi chamada de Teatro de Marionete, Teatro de Fantoches, Teatro de Bonecos, Teatro de Formas Animadas e recentemente recebeu a nomenclatura de Teatro de Animação. Expressões que revelam distintos modos de conceber essa arte, conforme Beltrame (2007) "até os anos de 1970 era mais conhecida como Teatro de Títeres, Teatro de Fantoches ou Teatro de Marionetes" (BELTRAME, 2007, p. 3). Em um relato, Kleist e Neumiller (1972) [1] contam que ao perguntarem para um marionetista como era possível controlar cada parte do Marionete, ele respondeu que não devemos supor que todos os membros do boneco sejam individuais. Pois cada movimento controlado, segundo ele, terá um centro de gravidade. Os membros do boneco funcionam um pêndulo, balançando livremente.


[1] O ensaio Uber das Marionetten Theater, em português No Teatro de Marionetes, foi publicado pela primeira vez no jornal Berliner Abendblatter em 15 de dezembro, 1810. Kleist foi editor do jornal.


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Vídeo: Marionette Rana Pianista

O Marionete ou Boneco de Fio é de construção complexa e manipulação difícil. Conforme Chen et al. (2008), este boneco que “artificialmente encarna a vida feito entidade”, é um complexo sistema mecânico, com fios suspensos a partir da cruz de manipulação, um controle (Cruz Vertical ou Cruz Horizontal utilizadas para manipular os bonecos.  Vertical para manipular personagens bípedes, horizontal para manipular quadrúpedes.)construído para ser utilizado pelo marionetiasta a fim de manusear todo o mecanismo  que cosiste o boneco. O termo marionete foi primeiramente associado com bonecos de fio no século XVI na Europa. Na China, é chamado de Xuan Mu Ou Si ou Ti Xian Mu Ou. Pode variar de 12 a 30 fios que convergem para a cruz de manipulação onde ficam ao alcance das mãos do manipulador.


O marionetista Albrecht Roser e o seu boneco personagem Gustaf

Para Malafaia (2004), o marionetista precisa conhecer o movimento específico do marionete encarando-o como um pêndulo para se desenvolver na técnica de manipulação. O Giramundo Teatro de Bonecos utiliza a Cruz Bross para manipular Marionetes. Diversas adaptações podem ser feitas de acordo com as necessidades de movimentação do boneco. A Cruz Bross original foi criada por Albrecht Roser, Marionetista alemão. Adaptada com inovações do Giramundo, esta cruz não é nem perpendicular e nem horizontal, é inclinada.


Mecanismos da Cruz Bross modelo Giramundo, adaptados de acordo com as articulações dos bonecos.
(Museu Giramundo 2011)

Manipulando um boneco (personagem Calopo Jarrah) de fio
(Concepção, Projeto e Construção: Leandro Martins de Miranda)


Construção de uma Cruz Bross 
(Projeto e Construção: Leandro Martins de Miranda)


Ao abordar sobre manipulação de bonecos de fio, não posso deixar de mencionar que em minha recente pesquisa, foi observado que os Marionetistas Albrecht Roser, Hansjür-gen Fettig e o tipógrafo ilustrador Willian Addison Dwiggins foram referências para o Giramundo Teatro de Bonecos, pois, em alguns materiais como apostilas do grupo, Albrecht Roser, um dos maiores marionetistas do mundo, é frequentemente mencionado assim como os outros autores. O alemão Hansjürgen Fettig, especialista em bonecos de vara e luva é autor de um dos livros que o Álvaro Apocalypse (um dos criadores do grupo Giramundo) se fundamentou para construir algus dos bonecos que hoje fazem parte do enorme acervo do Museu Giramundo em Belo Horizonte.


Exposição do Miniteatro Ecológico no Museu Giramundo em 2011



Vídeo: Hansjürgen Fettig - German Puppet Master

Imagens publicadas por Dorotty (1970) demonstraram ilustrações do tipógrafo Dwiggins, referentes ao o planejamento dos mecanismos de bonecos: movimentação; proporção; articulações em torno de eixos; fiação; ângulo. O planejamento é dividido em três partes: estudo, criação e projeto técnico. O estudo define a proporção dos membros do corpo do personagem e o seu visual para buscar a expressividade e a estética, sendo este o desenho artístico para visualizar o boneco com acabamento e figurino, ou uma série de croquis até definir a forma do boneco. Após definir a forma do boneco no estudo de criação, esta informação é transferida para o projeto técnico.



Dwiggins Marionettes


Conforme (BRAMALL; CHRISTOPHER, 1963, p. 53), "o boneco é um ator, não é uma boneca". A função do boneco (puppet), dentro do contexto Teatral, deixa de ter a função de um boneco ou brinquedo e passa a ter a função de um ator. Portanto, para que o boneco venha a ter expressão em cena, ele deve se distanciar de um brinquedo e se aproximar da expressividade de um ator. O mecanismo do boneco e o seu figurino devem ser projetados para permitir a liberdade de movimento. O boneco nada mais é que um objeto inanimado, mas através da cinética, ou seja, omovimento, a energia ou a capacidade de realizar um trabalho, torna-se animado, pois "O Teatro de Animação trabalha com a matéria concreta que, pela energia recebida do ator, torna-se animada, faz-se personagem" (AMARAL, 2005, p. 16).



REFERÊNCIAS


ALMEIDA, R. R. Bunraku e kabuki: A linguagem das animações japonesas. Puc-SP, 2008. Mestrado de Comunicação e Semiótica.

AMARAL, A. M. Teatro de Formas Animadas: Máscaras, Bonecos, Objetos. São Paulo: Edusp, 3aedição, 1996.

AMARAL, A. M. O Ator e Seus Duplos. São Paulo: Senac/Edusp, 2004.

AMARAL, A. M. O inverso das coisas. Móin-Móin, Revista de Estudos Sobre o Teatro de Formas Animadas, Scar/Udesc, v. 1, n. 1, p. 12–23, 2005. ISSN 1809-1385.

APOCALYPSE, A. Oficina de teatro de bonecos–um método como outros. Mamulengo, 1981. Revista da Associação Brasileira de Tatro de Bonecos.

BELTRAME, V. Transformações na linguagem do teatro de animação: A criação do espetáculo teatral. Vida de Boneco, CEART/UDESC, 2007. Disponível em: <http://www.ceart.udesc.br>. Acesso em: 10 jun. 2011.

BELTRAME, V.; SOUZA, A. Teatro de bonecos e a animação á vista do público. Teatro de Bonecos: Distintos olhares sobre teoria e prática, CEART/UDESC, 2008. Disponível em: <http://www.ceart.udesc.br>. Acesso em: 10 jun. 2011.


BRAMALL, R.; CHRISTOPHER, C. S. Expert Puppet Technique: A Manual of Production for Puppeteers. Boston: Plays INC, 1963.

CHEN, M.; RAY, R.; XING, S.; YEO, S. H. Marionette: From traditional manipulation to robotic manipulation. School of Mechanical and Production Engineering, Nanyang Technological University, 2008.
DOROTTY, A. The Dwiggins Marionettes: A Complete Experimental Theatre in Miniature. NY: Harry N Abrams INC, 1970.

FETTIG, H. Hand- und Stabpuppen: ein Werkbuch für Gestaltung und Technik der Akteure im Figurentheater. Stuttgart – Botnang: Verlag Frech, 1970.

GIRAMUNDO. Estrutura de Grupos: Construção Artesanal de Bonecos. Belo Horizonte, 2007. Teatro Móvel/Companhia Vale do Rio Doce. Direitos Exlusivos desta edição: Giramundo Teatro de Bonecos.

GIRAMUNDO: Index. 2008. Disponível em: <http://www.giramundo.org>. Acesso em: 18 ago. 2011.
KLEIST, H.; NEUMILLER, T. G. On the marionette theatre. The Drama Review: The Puppet Issue, MIT Press, v. 16, n. 3, p. 22–26, 1972.
MALAFAIA, M. Oficina Construção Artesanal de Bonecos. Montes Claros: Unimontes/Fadenor, 2004.

MCISAAC, F. J.; STODDARD, A. The Tony Sarg Marionette Book. New York: Huebsch INC, 1921.
OPHRAT, H. O boneco e o teatro visual. Móin-Móin, Revista de Estudos Sobre o Teatro
de Formas Animadas, v. 3, n. 4, p. 91–108, 2007.

SITCHIN, E. A possibilidade do Novo no Teatro de Animação. São Paulo: Edição do Autor. Programa Municipal de Fomento Teatro, 2009.

SITCHIN, E. O Papel do Ator Animador na Cena Teatral. São Paulo: Edição do Autor. Programa Municipal de Fomento Teatro, 2010.


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